Cartas enviadas a Deolane na prisão levantam discussão sobre atração por figuras encarceradas

Especialistas analisam por que celebridades e pessoas privadas de liberdade podem despertar admiração, afeto e até interesse amoroso em admiradores

Deolane Bezerra (Reprodução/Instagram)
Deolane Bezerra (Reprodução/Instagram)

A informação de que Deolane Bezerra recebeu diversas cartas de amor durante o período em que esteve presa voltou a chamar a atenção do público e reacendeu um debate que há anos desperta curiosidade entre psicólogos, pesquisadores do comportamento humano e estudiosos da sexualidade: o que leva algumas pessoas a desenvolver sentimentos românticos, afetivos ou até sexuais por alguém que está atrás das grades?

À primeira vista, esse tipo de comportamento pode parecer contraditório para muitas pessoas. No entanto, especialistas afirmam que o fenômeno é mais comum do que se imagina e envolve fatores emocionais, psicológicos, sociais e culturais bastante complexos.

No caso de Deolane, a situação ganha ainda mais repercussão por se tratar de uma personalidade conhecida nacionalmente. Antes mesmo das polêmicas que envolveram seu nome, a influenciadora digital e advogada já acumulava milhões de seguidores nas redes sociais, além de uma base fiel de admiradores. Segundo relatos divulgados pela imprensa, ela teria recebido diversas mensagens carinhosas e declarações amorosas durante o período de encarceramento.

Para a psicóloga Letícia de Oliveira, esse tipo de interesse nem sempre está relacionado aos motivos que levaram alguém à prisão.

“O fato de uma pessoa se apaixonar ou desenvolver admiração romântica por alguém que está preso não é tão raro quanto parece”, começou ela a coluna de Fábia Oliveira, do Metrópoles, antes de completar:

“Muitas vezes, as pessoas não se apaixonam pelo crime, mas pela imagem construída em torno daquela figura. No caso de personalidades famosas, existe um sentimento de proximidade emocional chamado relação parassocial, em que o indivíduo sente que conhece intimamente alguém com quem nunca teve contato direto”, explicou.

Segundo a especialista, celebridades costumam despertar um forte senso de familiaridade no público. A exposição constante em entrevistas, programas de televisão, redes sociais e notícias cria a impressão de intimidade, fazendo com que admiradores sintam uma conexão emocional genuína, mesmo sem nunca terem interagido pessoalmente com aquela figura pública.

Essa proximidade simbólica, de acordo com os estudiosos, pode permanecer mesmo quando a celebridade enfrenta momentos delicados ou se envolve em situações controversas.

“Outro aspecto importante é a atração pelo status, pela fama ou pela notoriedade. Pessoas muito conhecidas costumam receber declarações amorosas mesmo em situações extremamente negativas, porque a exposição constante aumenta a sensação de familiaridade e interesse”, afirmou.

Além da influência da fama, especialistas destacam que algumas pessoas desenvolvem sentimentos relacionados ao desejo de acolher, proteger ou oferecer apoio emocional a quem está vivendo um período difícil.

Em determinadas situações, o sofrimento enfrentado por alguém pode despertar empatia intensa e criar uma sensação de vínculo afetivo.

“Também há casos em que o sofrimento da pessoa presa desperta sentimentos de proteção, cuidado ou desejo de salvar o outro. Algumas pessoas enxergam alguém que está enfrentando dificuldades e passam a idealizar uma conexão afetiva”, relatou Letícia de Oliveira.

O tema também desperta interesse entre pesquisadores que estudam os mecanismos do desejo humano. Para Heitor Werneck, especialista em comportamento, sexualidade e fetiches, existe um componente histórico e cultural que ajuda a explicar esse tipo de fascínio.

“A figura do criminoso ou da pessoa presa ocupa um lugar simbólico muito poderoso no imaginário coletivo. Para algumas pessoas, existe uma atração pela ideia de rebeldia, desafio às regras e comportamento fora dos padrões sociais. Não necessariamente há interesse pelo crime, mas pela representação de poder, coragem ou liberdade que aquela pessoa parece transmitir”, pontuou.

Segundo Werneck, a atração por figuras consideradas transgressoras pode ser observada há décadas em livros, filmes, séries e até em casos reais envolvendo criminosos famosos que receberam milhares de cartas de admiradores ao redor do mundo.

O pesquisador afirma que o elemento do proibido costuma exercer forte influência sobre a construção do desejo.

“Existe uma parcela da população que sente atração por figuras consideradas perigosas ou inacessíveis. O proibido sempre exerceu forte impacto sobre o desejo humano. Em alguns casos, a distância física e emocional criada pela prisão também favorece processos de idealização, porque a pessoa admirada passa a existir mais na fantasia do que na realidade”, observou.

Dentro da psicologia, há ainda um fenômeno conhecido como hibristofilia, termo utilizado para descrever a atração por indivíduos que cometeram crimes. Apesar disso, os especialistas ressaltam que essa condição não explica todos os casos e não deve ser utilizada de forma generalizada.

“Existe um fenômeno estudado chamado hibristofilia, caracterizado pela atração por pessoas que cometeram crimes. Porém, esse é um quadro específico e não explica a maioria dos casos”, esclareceu Letícia de Oliveira.

Para a psicóloga, seria equivocado associar automaticamente qualquer demonstração de carinho ou interesse por pessoas presas a um transtorno psicológico ou à aprovação de condutas criminosas.

“Receber cartas de amor na prisão não significa necessariamente que essas pessoas aprovam crimes ou apresentam algum transtorno psicológico. Na maior parte das vezes, estamos falando de idealização, fascínio pela figura pública, necessidade de conexão emocional ou atração por alguém que já era admirado antes dos acontecimentos que levaram à prisão”, declarou.

Heitor Werneck acrescenta que os relacionamentos humanos são influenciados por uma enorme variedade de fatores subjetivos, tornando impossível explicar o desejo por meio de uma única lógica.

“O desejo humano raramente segue uma lógica simples. Muitas vezes, aquilo que parece estranho para algumas pessoas faz parte de construções emocionais complexas, influenciadas por experiências pessoais, referências culturais e fantasias individuais”, destacou.

No caso específico de Deolane Bezerra, os especialistas acreditam que a repercussão do episódio esteja mais ligada à sua popularidade do que ao fato de ela ter passado pela prisão. A combinação entre fama, forte presença digital, exposição constante na mídia e uma base consolidada de fãs ajuda a explicar o grande número de manifestações de apoio e carinho recebidas.

Para os estudiosos, o fenômeno evidencia como os vínculos afetivos podem ser construídos de maneiras diversas e nem sempre seguem padrões convencionais. Em muitos casos, a admiração por uma figura pública permanece mesmo diante de momentos difíceis, reforçando conexões emocionais que já existiam anteriormente.

“O comportamento pode ser considerado incomum para algumas pessoas, mas está dentro da diversidade das experiências humanas e dos vínculos afetivos que os indivíduos desenvolvem”, concluiu Letícia de Oliveira.

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