Forrozeiros criticam cachês milionários pagos a artistas sertanejos no São João

Artistas e admiradores da cultura nordestina criticam a disparidade entre os valores pagos a atrações sertanejas e forrozeiros tradicionais, enquanto órgãos de controle intensificam o monitoramento dos gastos públicos nas festas juninas

Gusttavo Lima; Wesley Safadão (Reprodução/Internet)
Gusttavo Lima; Wesley Safadão (Reprodução/Internet)

O pagamento de cachês milionários a artistas sertanejos durante os festejos juninos voltou a provocar críticas entre músicos e fãs da cultura nordestina. O principal questionamento gira em torno da diferença entre os valores destinados a nomes do sertanejo e aqueles pagos a representantes históricos do forró, considerado um dos símbolos das celebrações de São João. As informações são do colunista Carlos Madeiro, do UOL.

A discussão ocorre em um momento de maior fiscalização sobre os gastos públicos com eventos festivos. Nos últimos anos, órgãos de controle passaram a acompanhar com mais rigor os contratos firmados por prefeituras, levando muitos municípios nordestinos a adotarem critérios mais restritivos para as contratações do São João de 2026.

Embora o debate sobre a presença do forró nas festas juninas não seja recente, ele ganhou força durante o feriado prolongado de Corpus Christi.

Um dos principais expoentes do gênero, o cantor Flávio José, anunciou o cancelamento de cerca de 15 apresentações na Bahia após divergências envolvendo o valor de seu cachê. Segundo o artista, algumas prefeituras não aceitaram pagar o montante solicitado para este ano.

“Às vésperas da maior festa de manifestação cultural do Nordeste, eu recebo a notícia que o MP da Bahia resolveu diminuir o meu cachê! Enquanto outros artistas que nada têm a ver com forró, como sertanejos, ganham rios de dinheiro”, declarou em publicação feita no Instagram.

De acordo com o Ministério Público da Bahia (MP-BA), Flávio José passou a cobrar R$ 350 mil por apresentação em 2026, valor 40% superior ao praticado no ano anterior. Apesar disso, o cachê continua distante dos montantes pagos a algumas das atrações mais requisitadas das festas juninas.

Levantamento baseado em informações divulgadas pelo portal de transparência do MP-BA mostra que os maiores cachês entre 137 prefeituras baianas são destinados, em sua maioria, a artistas sertanejos ou de outros estilos musicais. Nenhum dos dez maiores valores registrados é de um representante do forró tradicional.

Entre os maiores cachês aparecem nomes como Gusttavo Lima (R$ 1,1 milhão), Wesley Safadão (R$ 1 milhão), Luan Santana, Victor e Léo e João Gomes (R$ 750 mil), além de Nattan, Ana Castela, Zé Neto e Cristiano, Maiara e Maraisa, Leonardo e Bruno e Marrone.

Dos artistas listados, apenas três são nordestinos. Entre eles, Wesley Safadão e Nattan são identificados com o forró estilizado, enquanto João Gomes tem sua trajetória ligada ao gênero.

Os valores pagos a esse grupo chegam a superar em mais de quatro vezes os cachês de artistas tradicionalmente associados ao São João, como Alceu Valença, Elba Ramalho e Alcymar Monteiro, que receberão até R$ 250 mil por apresentação na Bahia.

O posicionamento do MP-BA

Desde 2022, o Ministério Público da Bahia mantém um portal de transparência voltado aos festejos juninos, exigindo que os municípios divulguem os gastos relacionados à contratação de artistas e à estrutura dos eventos.

Segundo o órgão, os custos com atrações cresceram significativamente nos últimos anos. Em nota, o MP-BA informou que a média dos contratos saiu de aproximadamente R$ 200 mil para cerca de R$ 700 mil em um período de quatro anos. O aumento estaria relacionado, entre outros fatores, ao crescimento do volume de recursos destinados às festas por meio de emendas parlamentares.

Diante desse cenário, a recomendação feita aos gestores municipais foi de que os cachês pagos em 2026 não ultrapassassem os valores de 2025 acrescidos da inflação acumulada no período.

“As recomendações buscam a adequação do contrato às orientações técnicas dos órgãos de controle, construídas a pedido dos próprios gestores municipais, via União dos Municípios da Bahia (UPB)”, informou o MP-BA.

O órgão também ressaltou que a definição dos cachês leva em consideração critérios como notoriedade e projeção artística, admitindo exceções em casos específicos. No caso de Flávio José, a recomendação ocorreu em razão do reajuste aplicado em relação ao ano anterior.

O MP-BA afirmou ainda que enviou orientações a mais de cem municípios baianos que planejavam contratar artistas por valores superiores aos considerados adequados.

“Incluindo aqueles que anunciaram contratações do artista Flávio José pelo valor de R$ 350 mil, um aumento de R$ 100 mil em relação ao ano passado”.

Segundo o Ministério Público, as recomendações e negociações realizadas diretamente com empresários e artistas resultaram em uma economia próxima de R$ 19 milhões para os cofres públicos durante os festejos juninos.

Reação em defesa do forró

As declarações de Flávio José mobilizaram admiradores do forró e outros artistas do gênero. Nas redes sociais, muitos usuários questionaram a diferença de tratamento entre os cachês de artistas ligados à tradição junina e os valores pagos a nomes de outros estilos musicais.

Entre os apoiadores está o cantor Santanna, que criticou a situação.

“A cultura popular nordestina está sendo vilipendiada depois desse ataque ao nosso maior nome do forró”, escreveu.

Em entrevista ao PipocaCast no fim de maio, Santanna também lamentou a redução do espaço destinado aos forrozeiros em eventos tradicionais do Nordeste, incluindo a festa de São João de Campina Grande.

“Eu notava que já existia uma vontade de tirar a gente. Eu, Flávio José…”

A discussão remete ainda a episódios anteriores. Em 2023, Flávio José teve uma apresentação reduzida em 30 minutos durante um evento em Campina Grande. Na época, a justificativa teria sido ampliar o tempo disponível para o show de Gusttavo Lima.

Outro nome que entrou no debate foi o poeta, cantor e compositor Flávio Leandro. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele chamou atenção para a realidade de centenas de artistas locais que recebem remunerações muito baixas para se apresentar nos festejos.

“Existe a farra dos cachês, sim. É clara, nítida; mas tem uma lista de coisas inconclusas e a maior de todas elas é o piso dos cachês de artistas de bairro, dos trios de forró, de Zé, de Maria, de Pedro e de Chiquinha, que se submetem a cachês humilhantes que roubam sonhos, paz e dignidade. E eu, gente, sinceramente não vejo o Ministério brigando por essa dignidade, da qual depende um número imenso de artistas.”

Dados levantados na Bahia apontam a existência de 201 cachês inferiores a R$ 1.000 pagos a artistas locais, incluindo apresentações contratadas por apenas R$ 200.

Flávio Leandro também saiu em defesa do valor cobrado por Flávio José.

“Ele tem público para lotar qualquer casa de show do país. Acontece que ele próprio filtra a quantidade de apresentações anuais, prova de que tem uma vida financeira resolvida. É lamentável que o filtro necessário do MP não consiga extrair a grandiosidade de Flávio José para o São João e o trate de forma simplista, apenas com números. Isso é absurdo”.

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