‘Quem Ama Cuida’ deixa lógica de lado e apela em condenação de Adriana: ‘Mal feito’
Novela das nove: 'Quem Ama Cuida' deixa lógica de lado e apela em condenação de Adriana; confira os comentários

As redes sociais estão caindo em cima da novela Quem Ama Cuida por conta da rapidez com que a mocinha Adriana (Letícia Colin) está sendo condenada por um crime que ela não cometeu na história exibida na faixa das 21 horas da TV Globo.
“Mal feito esse julgamento”, “Sem provas”, “Isso não existe”, “Sem lógica alguma”, “Estão forçando demais” e “Só tem maldades” são alguns dos muitos comentários negativos que têm viralizado na web por parte do público de casa.
As sequências do folhetim que ficou no lugar de Três Graças seguem em alta no Ibope e também, na internet, já que cada episódio repercute e ganha diversos tipos de reações dos telespectadores.
O que tem rolado na trama das nove?
As novelas das nove da Rede Globo historicamente carregam a responsabilidade de prender o telespectador por meio de narrativas magnéticas, reviravoltas emocionais e, acima de tudo, o clássico gancho da justiça contra a impunidade. Na atual produção do horário nobre, Quem Ama Cuida, escrita pela dupla Walcyr Carrasco e Claudia Souto com direção artística de Amora Mautner, essa fórmula ganha contornos dramáticos intensos.
No entanto, a transição da trama para a sua aguardada segunda fase tem levantado discussões acaloradas entre críticos e telespectadores. O ponto central do debate é a forma como o roteiro parece “forçar a barra” para transformar a doce e batalhadora protagonista Adriana, interpretada por Leticia Colin, em uma implacável figura vingativa quando a obra mudar de tempo.
Para compreender o incômodo com essa guinada, é preciso analisar o ponto de partida da personagem. Adriana foi apresentada ao público como uma fisioterapeuta dedicada, moradora da periferia de São Paulo, que cuidava com afinco de sua família — composta por sua mãe Elisa (Isabela Garcia), seu avô Otoniel (Tony Ramos) e seu irmão Maurício (João Victor Gonçalves). Sua vida sofreu um revés catastrófico na noite de seu casamento com o milionário Arthur (Antonio Fagundes), que terminou em tragédia com o assassinato do empresário. A partir dali, a mocinha virtuosa virou o alvo perfeito de uma grande armação arquitetada por vilões inescrupulosos, como a terrível Pilar (Isabel Teixeira) e o ardiloso advogado Ademir (Dan Stulbach).
- O grande problema que se desenha na tela não é a injustiça em si, mas a velocidade e a artificialidade com que os roteiristas empilham desgraças sobre a cabeça de Adriana para justificar sua futura transformação em uma anti-heroína vingativa. O julgamento da jovem serve como o ápice dessa saturação dramática. Para garantir que ela seja condenada a uma pena severa de 12 anos em regime fechado, a narrativa apela para manobras questionáveis.
- Ademir suborna testemunhas de maneira flagrante, como o personagem Tom, que aceita uma “mixaria” para mentir no tribunal, arrancando a própria máscara de forma quase caricata. Enquanto isso, Pedro (Chay Suede), o advogado idealista apaixonado por Adriana e filho do próprio Ademir, é afastado do caso por manobras de bastidores envolvendo a amizade espúria de seu pai com o juiz responsável.
- As incoerências continuam a se acumular na rotina prisional da protagonista. Em um curto espaço de tempo, Adriana “come o pão que o diabo amassou” no folhetim da plim plim: é humilhada por Pilar atrás das grades, sofre pressões e chantagens psicológicas e acaba sendo obrigada a terminar de forma cruel seu romance recém-descoberto com Pedro. Sob a ameaça de Pilar de que a vida do advogado correria perigo caso eles continuassem juntos, Adriana mente, afirmando que não o ama, apenas para afastá-lo e protegê-lo. Para completar o martírio, ela faz uma inimiga perigosa na cadeia, Zeni, sofre uma agressão violenta e vai parar no ambulatório em estado gravíssimo.
Essa sequência ininterrupta de sofrimentos cumpre uma função óbvia na mecânica de Walcyr Carrasco: despir a protagonista de qualquer resquício de passividade. O problema é que, ao acelerar esse processo por meio de erros bobos da própria mocinha e da extrema facilidade com que os vilões operam seus crimes, a novela soa repetitiva e sem verdade para parte do público. A transição de Adriana de vítima indefesa a uma estrategista fria, que após uma passagem de tempo de seis anos deixará a prisão disposta a arruinar a estabilidade familiar de Ademir e Pilar , parece carecer de uma evolução psicológica natural. O roteiro opta pelo trauma bruto em vez do desenvolvimento sutil.
Ao forçar a barra para que a fisioterapeuta se torne um rolo compressor pronto para triturar seus inimigos na segunda fase, Quem Ama Cuida flerta com o inatingível e corre o risco de esvaziar a essência humana da personagem. Embora o público adore uma boa história de revanche, nos moldes da clássica saga de Clara em O Outro Lado do Paraíso,, o sucesso dessa fórmula depende do equilíbrio entre a dor legítima e a verossimilhança das situações. Resta saber se, quando a segunda fase efetivamente começar, a atuação talentosa de Leticia Colin conseguirá dar profundidade a essa metamorfose dela, que de calma mudará para uma vingativa mais dura.
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