No auge da fama, promessa do funk morre ao tomar tiros enquanto cantava no palco

Ídolo do funk ostentação foi morto aos 20 anos durante uma apresentação em Campinas, mas sua influência continuou viva na música brasileira anos após sua partida

MC Daleste (Divulgação)
MC Daleste (Divulgação)

A trajetória de MC Daleste é lembrada até hoje como uma das mais marcantes e trágicas da história do funk brasileiro. Dono de uma carreira meteórica, o cantor conquistou milhões de fãs em poucos anos, tornou-se um dos principais representantes do funk ostentação e viu seu nome alcançar projeção nacional. No entanto, quando estava no auge da popularidade, sua vida foi interrompida de forma brutal durante uma apresentação, em um episódio que chocou o Brasil e repercutiu internacionalmente.

Nascido em São Paulo, Daleste rapidamente se destacou no cenário musical por suas letras que retratavam sonhos de ascensão social, consumo, conquistas e a realidade vivida por muitos jovens da periferia. Seu carisma, aliado à forte conexão com o público, transformou o artista em um fenômeno da internet e dos bailes funk, acumulando multidões por onde passava.

Em julho de 2013, porém, o cantor protagonizou involuntariamente uma das cenas mais impactantes da música brasileira. Na noite de 6 de julho, um sábado, MC Daleste realizava um show em uma quermesse promovida no CDHU San Martin, conjunto habitacional localizado no bairro São Marcos, em Campinas, interior de São Paulo.

A apresentação acontecia normalmente diante de milhares de pessoas. Segundo relatos de moradores da região, mais de três mil pessoas acompanhavam o evento gratuito. O cantor já estava nos momentos finais do espetáculo e conversava com o público quando foi surpreendido pelos disparos.

De acordo com as investigações e a perícia realizada posteriormente, três tiros foram efetuados em direção ao palco. Um dos projéteis passou próximo ao braço esquerdo do artista, enquanto outro o atingiu abaixo do peito. O momento exato do ataque foi registrado por um fã que filmava a apresentação, e as imagens rapidamente se espalharam pelas redes sociais e pelos telejornais de todo o país.

Mesmo ferido, Daleste foi socorrido às pressas e encaminhado para atendimento médico. Inicialmente, ele foi levado para o Hospital Municipal de Paulínia, onde chegou a ser encaminhado ao centro cirúrgico. Apesar dos esforços da equipe médica, os ferimentos foram graves demais. A morte do cantor foi confirmada às 0h55 do dia 7 de julho de 2013.

A notícia causou enorme comoção entre fãs, artistas e profissionais da música. Nas horas seguintes, homenagens passaram a ocupar as redes sociais, enquanto admiradores lamentavam a perda precoce de um jovem que era considerado uma das maiores promessas do funk nacional.

A repercussão ultrapassou as fronteiras brasileiras. Veículos de imprensa de diversos países destacaram o caso, chamando atenção para a violência que interrompeu a trajetória de um artista em ascensão. Publicações internacionais como a revista britânica NME e jornais e revistas norte-americanos, entre eles Billboard, The Huffington Post, Los Angeles Times, Rolling Stone e New York Daily News, repercutiram o assassinato e apresentaram ao mundo a história de MC Daleste.

Mesmo após sua morte, o cantor continuou sendo lembrado por fãs e familiares. Em 2014, entretanto, um episódio voltou a gerar indignação. No dia em que Daleste completaria mais um ano de vida, seu túmulo foi alvo de vandalismo. A lápide que continha uma fotografia do artista amanheceu destruída, enquanto faixas e homenagens deixadas por admiradores foram rasgadas.

Na época, familiares e autoridades levantaram a suspeita de que pessoas ligadas ao responsável pelo crime pudessem estar envolvidas na depredação. O caso aumentou ainda mais a revolta dos fãs e reacendeu o debate sobre a investigação do assassinato.

Apesar do fim trágico, o legado de MC Daleste permaneceu vivo. Seu nome se tornou uma referência dentro do funk brasileiro e sua influência passou a ser reconhecida oficialmente. Em 2016, o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sancionou a Lei nº 16.310/16, que instituiu o dia 7 de julho como o Dia Estadual do Funk em São Paulo.

A homenagem surgiu após um projeto apresentado pela deputada estadual Leci Brandão na Assembleia Legislativa paulista e representou um reconhecimento da importância cultural do gênero musical e da contribuição deixada pelo artista.

Além das homenagens oficiais, a obra de Daleste continuou inspirando novas gerações de músicos. Um dos exemplos mais conhecidos envolve a música “Quem é?”, um dos maiores sucessos do cantor. Anos após sua morte, a canção ganhou uma releitura da cantora Gloria Groove.

A artista transformou elementos da composição original em “Vermelho”, faixa que se tornou um dos maiores sucessos de sua carreira. A música alcançou destaque nacional, conquistou milhões de reproduções nas plataformas digitais e ampliou ainda mais o alcance da obra que havia sido popularizada por Daleste.

Em 2022, “Vermelho” recebeu três indicações ao Prêmio Multishow e conquistou certificação de diamante, consolidando-se como um dos grandes hits do ano.

A influência da música também chegou a uma nova geração de artistas. Tempos depois, o funkeiro MC Menor JP viralizou nas redes sociais ao publicar um vídeo interpretando uma versão própria inspirada em “Quem é?”. O conteúdo rapidamente se espalhou pela internet, alcançando milhões de visualizações.

A repercussão ultrapassou as fronteiras brasileiras quando a rapper norte-americana Cardi B compartilhou o vídeo em suas redes sociais, contribuindo para que a canção ganhasse projeção internacional.

Posteriormente, MC Menor JP lançou oficialmente sua adaptação sob o título “Menina de Vermelho”. A faixa se transformou em sucesso nas plataformas digitais, foi executada em festas e festivais por todo o país e chegou até mesmo aos palcos da edição brasileira do Tomorrowland.

Mais de uma década após sua morte, MC Daleste continua sendo lembrado como um dos nomes mais importantes da história do funk. Sua trajetória, marcada por uma ascensão rápida, um fim trágico e uma influência duradoura, permanece viva através de suas músicas, das homenagens recebidas e do impacto que deixou em diferentes gerações de artistas e fãs.

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