Entenda como manuscrito achado em esgoto e transportadora ligaram Deolane Bezerra a Marcola
Investigação aponta a influenciadora Deolane Bezerra como peça-chave do núcleo financeiro em esquema de lavagem de dinheiro ligado à cúpula da facção criminosa

Uma complexa investigação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo revelou os detalhes que colocaram a advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra no centro de um suposto esquema de lavagem de dinheiro comandado pelos irmãos Marco Willians Herbas Camacho (o Marcola), apontado como líder do PCC (Primeiro Comando da Capital), e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior (o Marcolinha). As informações são da colunista Fabíola Perez, do UOL.
Denunciada formalmente pelo Ministério Público pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro após ter um pedido de liberdade negado pela Quinta Turma do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Deolane é apontada no relatório policial como o “verdadeiro caixa” de um esquema estruturado em quatro escalões hierárquicos.
A origem da investigação: Bilhetes no esgoto de presídio
O ponto de partida de toda a apuração policial parece roteiro de cinema: manuscritos encontrados no esgoto de uma cela na Penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo. Os bilhetes estavam em celas ocupadas por presos de forte ligação com os irmãos Camacho — entre eles um detento conhecido como “Cigano”, braço direito de Marcolinha no tráfico internacional de cocaína e parceiro de banho de sol de Marcola.
Além de mapear rotas de tráfico e planejar atentados contra agentes públicos, as anotações mencionavam uma “mulher da transportadora”. A pista levou a polícia até a empresa Lopes Lemos Transportes (também citada como Lado a Lado Transportes), localizada estrategicamente próxima ao presídio de Presidente Venceslau.
Em dezembro de 2021, mandados de busca e apreensão na casa dos sócios da empresa, Elidiane Saldanha Lopes e Ciro César Lemos, resultaram na apreensão de telefones celulares que descortinaram a rede de comunicação da facção. Em uma das mensagens, Ciro afirmava administrar o negócio “há quatro anos” junto a “Gordão e Narigudo” — alcunhas que, segundo a polícia, referem-se respectivamente a Marcolinha e Marcola.
A estrutura do esquema e o papel dos “mensageiros”
De acordo com o Ministério Público, a engrenagem criminosa funcionava como um negócio familiar dividido em quatro núcleos de poder perfeitamente delineados:
- Núcleo de Comando: Formado por Marcola e Marcolinha, que de dentro de penitenciárias federais emitiam as diretrizes gerais do esquema.
- Núcleo dos Mensageiros: Composto pelos filhos de Marcolinha, Paloma Sanchez Camacho e Leonardo Camacho. Paloma era a responsável por visitar o pai na Penitenciária Federal de Brasília e repassar as ordens aos operadores externos. Mensagens interceptadas mostram Paloma dividindo os lucros: “30% pra mim, 30% pro L [Leonardo], e 30% pra Thata [Vitória Alves, também filha de Marcolinha]”.
- Núcleo Operacional: Comandado por Ciro César Lemos e por Everton de Souza (conhecido como “Player” ou “Temer”). Everton atuava como o administrador de confiança dos bens dos irmãos Camacho, orientando quais contas bancárias deveriam receber os recursos para os “acertos” e “fechamentos” financeiros.
- Núcleo Financeiro (Deolane Bezerra): No quarto escalão da estrutura, Deolane operava como a destinatária final dos valores.
As movimentações de R$ 140 milhões e empresas fantasmas
A polícia chegou ao nome de Deolane Bezerra ao rastrear os caminhos do dinheiro comandados por Everton de Souza, o “Player”. Segundo o relatório da investigação, a influenciadora — que possui mais de 21 milhões de seguidores nas redes sociais — teria “emprestado sua estrutura financeira e aparente respeitabilidade social” para integrar os valores ilícitos da transportadora ao mercado legal.
A quebra de sigilo bancário e fiscal de Deolane revelou movimentações financeiras assustadoras e completamente incompatíveis com a renda declarada pela advogada. O montante total movimentado por suas contas pessoais e de suas empresas ultrapassou a cifra de R$ 140 milhões entre créditos e débitos.
Além disso, as autoridades identificaram empresas fantasmas registradas em nome da influenciadora no interior do estado de São Paulo. O elo definitivo com a facção se deu na contabilidade: as empresas de Deolane utilizavam os serviços do contador Eduardo Affonso Rodrigues, o mesmo profissional que cuidava das finanças ilícitas de Everton, o operador do PCC.
Defesas alegam incomunicabilidade e “caça às bruxas”
A defesa de Deolane Bezerra, representada pelo advogado Aury Júnior, criticou duramente a condução do caso, classificando a prisão da influenciadora como uma “caça às bruxas” de caráter puramente vexatório. “Deolane sempre foi um troféu, uma figurinha premiada. Outras pessoas estão sendo investigadas e, eventualmente, serão presas, mas é claro que ela é alguém que chama atenção”, declarou o advogado.
Por meio de nota emitida por seus defensores, os irmãos Marco Willians e Alejandro Herbas Camacho negaram qualquer participação no esquema, bem como a propriedade direta ou indireta da transportadora citada. A defesa de Marcola enfatizou que o cliente cumpre pena desde 1999 e encontra-se detido na Penitenciária Federal de Brasília desde 2019 sob “regime de total incomunicabilidade”, o que impossibilitaria o envio de ordens externas. As defesas de Everton de Souza (“Player”) e dos sócios da transportadora não foram localizadas ou não se manifestaram até o fechamento dos relatórios.
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