Remake de sucesso da Globo deu à jovem Fernanda Torres o papel de protagonista, mas a atriz não se encaixou na função de mocinha inocente e sofredora
Publicado em 24/02/2025, às 09h46
Em 24 de fevereiro de 1986, a Globo levou ao ar o remake de Selva de Pedra, clássico de Janete Clair, como sua nova novela das oito. A trama, que fez enorme sucesso em 1972 com Regina Duarte no papel principal, voltou modernizada para o público dos anos 1980, mas trouxe uma grande surpresa: sua protagonista, Fernanda Torres, não se identificou com o papel e a experiência afastou a atriz das novelas.
Segundo o jornalista Nilson Xavier, do Teledramaturgia, a expectativa em torno de quem interpretaria a mocinha Simone foi grande na época. O nome mais cotado era Lucélia Santos, mas a atriz ficou para Sinhá Moça, o que deixou a vaga aberta para Fernanda Torres, que vinha de uma ascensão meteórica no cinema. Seu talento já havia sido reconhecido em filmes como A Marvada Carne, Com Licença, Eu Vou à Luta e Eu Sei Que Vou Te Amar.
Apesar da aposta ousada da Globo, a escolha se mostrou problemática. Xavier destaca que, aos 20 anos, Fernanda era jovem demais em relação a seus colegas de cena, Tony Ramos e Christiane Torloni. Além disso, a atriz não parecia à vontade no papel da mocinha tradicional, um arquétipo distante de sua personalidade e estilo interpretativo.
Com o tempo, Fernanda passou a demonstrar insatisfação com o trabalho, revelando em entrevistas posteriores como se sentiu pouco conectada com a personagem e a experiência. O resultado de sua participação na novela foi pesado: a atriz nunca mais aceitou protagonizar uma novela inteira.
Se a experiência na novela foi frustrante, 1986 reservava uma grande conquista para Fernanda Torres no cinema: em maio, ela foi premiada no Festival de Cannes como Melhor Atriz por Eu Sei Que Vou Te Amar.
No entanto, devido às gravações de Selva de Pedra, a Globo não liberou a atriz para comparecer à cerimônia e receber a cobiçada Palma de Ouro pessoalmente. O episódio marcou um dos pontos mais polêmicos de sua carreira e reforçou sua decisão de se afastar das novelas.
Em 2024, a atriz foi cotada para viver Odete Roitman no remake de Vale Tudo, mas preferiu focar suas energias na campanha para o Oscar de Ainda Estou Aqui. O filme lhe rendeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama e uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. A premiação será no dia 2 de março.
O remake de Selva de Pedra, segundo o Teledramaturgia, foi uma escolha estratégica da Globo após o sucesso de Roque Santeiro. A emissora buscava uma trama forte para manter os altos índices de audiência e chegou a cogitar Barriga de Aluguel, de Glória Perez, mas a história foi adiada e só foi produzida anos depois. Assim, Selva de Pedra foi a opção escolhida para suceder à novela de Dias Gomes.
Inspirada no romance Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser, a história central girava em torno de Cristiano (Tony Ramos), um homem ambicioso que se envolve em um crime e precisa recomeçar a vida. Ao seu lado, duas mulheres fundamentais: Simone (Fernanda Torres), sua grande paixão, e Fernanda (Christiane Torloni), a figura fatal que transforma sua trajetória.
Embora não tenha alcançado os índices estrondosos da versão original de 1972, o remake cumpriu sua missão e manteve o público engajado. Mas, para Fernanda Torres, a experiência deixou marcas: após a novela, ela migrou definitivamente para o cinema e o teatro, construindo uma carreira de prestígio e evitando os papéis convencionais das telenovelas.
Mesmo sem ter sido o projeto ideal para a atriz, Selva de Pedra segue como um capítulo curioso em sua trajetória — a novela que a fez dizer adeus ao formato que consagrou tantas estrelas da TV brasileira.
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